Dentista no hospital?

Infecções bucais afetam tratamentos em hospitais

Para muitas pessoas o ambiente hospitalar é restrito apenas aos médicos. Mas, isso está mudando graças ao entendimento de que a saúde bucal é tão importante quanto qualquer outro cuidado que se tenha com o corpo. A higienização oral, por exemplo, é tão necessária quanto ter a pressão arterial dentro do que é considerado saudável, assim como ter o índice de colesterol baixo no sangue ou ainda manter uma densidade óssea adequada, a fim de evitar o aparecimento da osteoporose.
Segundo Marcelo Marcucci, mestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, historicamente a atuação do dentista no ambiente hospitalar restringia-se  à área da cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, onde são tratadas as lesões traumáticas da face e das deformidades maxilomandilbulares. Com o avanço do conhecimento médico e odontológico, o cuidado com a saúde bucal no hospital é cada vez mais frequente.
“A consciência de que as doenças bucais, especialmente as infecções dos dentes e das gengivas, podem afetar o prognóstico dos tratamentos médicos de pacientes hospitalizados vem ampliando o enfoque multidisciplinar”, afirma Rodrigo Guerreiro Bueno de Moraes, mestre em Diagnóstico Bucal pela Universidade Paulista.
Para Marcucci, as ações ondontológicas preventivas e curativas no paciente hospitalizado diminuem o tempo de internação, o uso de medicamentos e melhoram os indicadores de saúde e a qualidade de vida.
“Além dos traumatismos faciais, distúrbios das articulações e quebras ósseas e dentárias, os problemas bucais mais comuns são os focos infecciosos, que podem variar desde cáries até problemas de canal, e principalmente, doenças como gengivites e periodontites, que se transformam em reservatórios de bactérias, fungos e vírus, podendo se espalhar facilmente pelo organismo”, explica Rodrigo.
O papel do dentista no ambiente hospitalar não se restringe às ações preventivas, segundo Elaine Cristina Cappelano, especialista em Odontopediatria e Estomatologia. Ela esclarece que mesmo na UTI é possível realizar diversos procedimentos, como restaurações, oxodontias, confecção de dispositivos para prevenção de mordeduras, biópsia, remoção de focos infecciosos e da dor.
“O protocolo básico de higiene bucal em pacientes na UTI consiste em hidratar a mucosa bucal, prevenindo microlesões devidas ao ressecamento causado pelos inúmeros medicamentos usados e pela constante abertura da boca por conta do tubo. A aspiração bucal também é importante, pois a secreção que fica na orogaringe pode ser aspirada inadvertidamente pelo paciente, causando pneumonia, que tem incidência na UTI de 20% a 40%, aumentando o tempo de internação. É preciso ainda higienizar a língua a fim de evitar a saburra, que é rica em microrganismos”, afirma Cristina.
A resolução RDC nº7, de 24 de fevereiro de 2010, da Anvisa, que dispõe sobre os requisitos mínimos para o funcionamento de uma UTI, afirma a assistência odontológica como parte dos serviços assistenciais obrigatórios, mas, segundo Cristina, isso não acontece na prática e infelizmente ainda não há dentistas em todos os hospitais.
Keller de Martini, especialista em Periodontia, atuante na área de Odontologia Intensiva desde 2007, responsável pela implantação do Serviço de Odontologia Intensiva dos Hospital Municipal Universitário de São Bernardo do Campo, em São Paulo, doutorando em Odontologia Intensiva pela SOBRATI e coordenador do curso de Odontologia Intensiva pela IBROI, ressalta que há dois pontos que também devem ser considerados para a ausência do dentista no hospital. Ele assinala que muitos estudantes saem da faculdade formados para atender, sobretudo, em consultórios. E muitas instituições não possuem informações acerca da necessidade desse profissional na equipe, como parte fundamental no atendimento aos pacientes críticos.
O Projeto de Lei nº 2.776/2008, do deputado federal Neilton Mulim, que obriga a presença do odontológo nas UTIs públicas e privadas, tramita no Congresso desde 2008, aguardando aprovação.

 

 

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